Sei Lá — um conto de Desmortos



 Sei Lá — um conto de Desmortos

Mary C. Muller



You and me

We're in this together now

None of them can stop us now

We will make it through somehow

We’re in This Together — Nine Inch Nails



— Onde é que a gente tá indo? — Lucas perguntou, sem desviar os olhos da janela.

Felipe ajustou o volume para conversarem melhor e batucou os dedos no volante ao som da música. 

— Pensei em mudar de praia. To enjoado de chorar sempre na mesma. 

A resposta arrancou uma risadinha de Lucas e Felipe sentiu o familiar calafrio no ventre que se apoderava dele com cada vez mais frequência na presença do fantasma. Tinha certeza que Lucas já havia percebido, visto que compartilhavam um corpo todos os dias nos ensaios da banda sempre que Lucas incorporava nele. Era fácil esconder seus pensamentos e sentimentos, mas reações físicas… as reações físicas ele não podia controlar.

— Você se importa?

— Me importo com o que? — Lucas perguntou.

— Da gente ir em outra praia. É que sempre te levo pra conversar na Praia Central e sei lá, cansei.

— Sei lá, tanto faz, Lipe, por mim a gente nem saía de casa. Quem paga a gasolina é você.

— Eu mando a conta pro Mundo Espiritual. E eu gosto de dirigir. Me acalma. Posso ficar concentrado na estrada e esquecer que minha mente não fica em silêncio. E minha mente tem estado… caótica. Pra dizer o mínimo.

— Por quê?

Porque o cérebro parara de funcionar direito desde que se apaixonara não por uma, mas duas pessoas mortas pelas quais era responsável como médium, pensou.

— Sei lá — respondeu.

Ficaram em silêncio, dirigindo pela cidade escura. Felipe entrou na Avenida Marginal Leste. Lucas movia os lábios em silêncio, cantando a música que vinha dos alto-falantes e movendo os pés no ritmo.

Não era um silêncio ruim. E era justamente o conforto do silêncio que incomodava Felipe. Lucas estava morto. E não era certo se sentir tão confortável perto dele. Precisava manter uma distância que fosse saudável para os dois. Mas não conseguia. Lucas, e Lorena também, o atraíam feito um imã, como se fossem as duas peças do quebra-cabeça que faltavam em sua vida. 

E com esse pensamento brega na cabeça, ele perguntou:

— Como tá você e a Lori?

Lucas deu de ombros.

— Bem. Eu acho. Ela parece tá ficando melhor a cada dia.

Felipe assentiu com a cabeça, concordando. 

— Eu não acho que a Lorena vai ficar muito tempo aqui.

Lucas, que estivera com a cabeça apoiada na janela, se virou, interessado.

— Quanto tempo mortos que morrem em acidentes de carro costumam ficar aqui?

Felipe olhou para ele rapidamente, sem tirar a atenção da estrada.

— Uns quatro meses.

— É muito pouco.

— Sim. Mas Lorena é um zumbi, os zumbis demoram mais. Uns seis meses, talvez.

Lucas pareceu aliviado, mas a expressão se neutralizou depressa. 

Felipe não deixou a oportunidade passar.

— Achei que você queria que a Lori fosse pro Mais-Além.

— Eu quero. É só que… — ele balançou a cabeça, fazendo os cachinhos negros balançarem. — Sei lá.

— Parece que a noite será repleta de sei lás.

— O que você quer que eu diga, Lipe? Eu não quero ficar sem ela e eu sei que vou ficar por aqui por muito mais que seis meses. Tinha uma fantasma na casa da Violeta que já tava lá há cinco anos.

Entraram na avenida Interpraias. Felipe gostava de dirigir ali de noite. Nada além de mata atlântica dos dois lados e a expectativa da vista da praia noturna em frente. O cheiro da maresia e da floresta entravam pela janela do carro junto com o vento gelado, mas não subiu o vidro. 

Lucas manteve os olhos verdes na praia de Laranjeiras que se revelava entre a mata fechada. Pensou em parar ali mesmo, mas dirigiu mais alguns minutos até o mirante de Taquarinhas que estava escuro e vazio.

Saiu do carro e apoiou o pé na mureta de pedras, sentindo o ar gélido no rosto. O vapor que logo se condensou em volta da boca, era levado pelo vento. Ele tremeu de frio.

Lucas, que não era afetado pelo clima, sentou na mureta com os pés na direção do mar. Um pouco relutante, sentou ao lado dele, sentindo o traseiro gelar contra o concreto frio.

Esfregou as mãos e as colocou no bolso do moletom. Respirou fundo, olhando em volta. Apenas as luzes dos postes, fracas, iluminavam a rua. O mar infinito, lá embaixo do morro, e a mata ciliar estavam à sombra, com nada além da lua e das estrelas como iluminação.

O som das ondas, indo e vindo, encheram o ar noturno servindo de distração para aquele silêncio confortável entre os dois. O frio beliscava sua pele e os cabelos loiros na altura do queixo ficavam entrando em seus olhos com o vento.

Tinha pensando em tantas coisas para falar naquela noite. Mas ali, naquela quietude, vendo toda aquela imensidão, só conseguia ficar quieto. Falar o colocaria numa situação vulnerável e não queria se sentir vulnerável naquela noite. Só queria ficar em paz.

Foi Lucas quem quebrou o silêncio, apesar de ser ele quem geralmente o prolongava.

— Eu tava pensando — ele começou, e fez uma pausa. — A gente provavelmente já esteve no mesmo lugar ao mesmo tempo antes de eu… virar isso.

Felipe o olhou de esguelha. Lucas olhava em frente, como sempre. Não era comum ele fitar seu interlocutor. 

— Eu tava pensando nisso outro dia — respondeu. — É capaz de eu já ter comprado com você na loja de música e nem lembro.

— Eu teria me lembrado de você.

Felipe balançou a cabeça.

— Tenho certeza de que eu seria só mais um maluco tatuado entre todos os malucos tatuados que você via por dia.

— Tenho certeza que não.

Felipe olhou para ele e Lucas o olhava de volta. Os olhos dele cintilavam de um jeito que não costumava ver em fantasmas. Tinha a impressão de que eram quase vivos, mas sabia que estava apenas vendo o que queria ver. Que era seu desejo falando mais alto, sua ânsia para que Lucas estivesse vivo, presente e disponível.

Esfregou o rosto e colocou o cabelo para trás da orelha, desviando o olhar.

— De qualquer forma, eu comprava lá direto. O Shion e a Ruby também.

Lucas cruzou as pernas, a coluna torta, olhando para o mar como se algo emocionante estivesse acontecendo por lá. Felipe podia imaginar no que ele estava pensando. Algo comum em todos os mortos que ajudava: como a vida teria sido se a, b ou c tivesse acontecido. Se teria morrido caso tivesse pegado um caminho diferente ou conhecido certa pessoa. 

Felipe pensava nisso também, sabendo que Lucas estivera tão perto, trabalhando em uma loja que a banda costumava frequentar. Se tivessem anunciado lá que precisavam de um vocalista, será que Lucas…

— Eu tento não pensar nessas coisas — disse o fantasma, tirando a mente de Felipe do lugar que não queria estar. — Mas penso mesmo assim. 

— Todo mundo pensa assim.

— Até você?

— O tempo todo. Essa é uma das coisas que mais prendem os mortos aqui. E sinceramente, os vivos também.

Lucas voltou o olhar pensativo para o oceano mais uma vez, cutucando o piercing no canto da boca.

Ficou ali sentado, abraçando o próprio peito frio, olhando para Lucas com o canto dos olhos. Queria tanto saber como ele morrera. Mas sabia que ele não estava preparado para aquela conversa e que tocar no assunto o afastaria. A resposta para aquela dúvida, porém, responderia muitas perguntas não ditas. Alguns dias, sentia que seria incapaz de resistir a tentação de olhar o arquivo dele e ler a história completa. Queria saber tudo sobre o tempo que ele passara com Violeta, e se uma médium como ela, especializada em suicidas, não havia sido capaz de ajudá-lo, então o que poderia fazer com ele? Como seria capaz de ajudar?

Resolveu arriscar:

— Me fale da Violeta.

— Ela é horrível — A resposta veio rápida. Lucas costumava medir mais as palavras.

— Ouvi dizer. Me estranha ela ser tão…

— Eficiente?

— … É.

— É porque viver lá é uma tortura e os fantasmas vão pro Mais-Além pra escapar do tédio que é ficar naquele apartamento bege com cheiro de incenso de lavanda.

Felipe soltou uma risada.

— Talvez minha casa seja interessante demais pra você e a Lori.

— Particularmente, não to com a menor pressa de ir pra lugar nenhum. Que ironia, heim?

— Você não gosta de pensar muito nisso, né?

— E alguém gosta?

Felipe ajeitou a perna, esfregou as mãos e jogou o cabelo para dentro do capuz do moletom.

— Tem gente que gosta, sim. Alguns fantasmas odeiam ficar na terra e ficam com pressa de ir embora logo de uma vez. 

— E a Lorena?

— Você precisa perguntar isso diretamente pra ela.

Ele fez um muxoxo, movimentando os ombros para cima e para baixo.

— Se eu perguntar isso pra ela, ela vai ficar emo.

— A Lorena é emo.

— Ficar mais emo — Lucas se corrigiu com um sorriso pequeno. — Nunca pensei que fosse gostar tanto dela — ele acrescentou em voz baixa, olhando para a vegetação densa do outro lado da mureta.

Felipe ficou calado com um pensamento parecido preso na garganta. “Nunca pensei que fosse gostar tanto de vocês dois”.

— Você acha que eu deveria me afastar dela? — Lucas perguntou, olhando de relance para o médium.

— Que? Não, porque? 

— Bem, porque eu… — Lucas se interrompeu e ficou em silêncio por um momento que parecia nunca acabar.


Felipe ficou olhando para ele, esperando a resposta que nunca veio. Queria saber o que se passava na cabeça dele, mas precisava esperar. Todo aquele medo, receio e angústia pareciam vir de algum lugar muito particular e não podia arrancar as respostas dele.

— Não, não pensa nisso. Você ama ela — Felipe falou.

Lucas se voltou para ele.

— Eu nunca disse isso.

— Tem coisas que você não precisa dizer.

O fantasma apoiou os cotovelos nos joelhos e se embalou de leve para frente e para trás.

— Porque você acha que eu acharia isso? — Felipe perguntou.

— Sei lá. Parece ser a coisa responsável a se achar.

— E eu lá tenho cara de quem fica seguindo norma? Eu já falei isso pra Lorena uma vez. É estúpido achar que as pessoas vão parar de amar só porque morreram. E é mais estúpido ainda achar que mortos não merecem ser amados. 

— Você não acha esse pensamento muito idealista?

— Como assim?

— Como todo resto em você. 

— Não sou eu que sou um sonhador idealista, Lucas, é o Mundo Espiritual que pensa de forma burra. 



Irritado por pensar naquilo, deitou no concreto gelado, apoiando a cabeça na perna de Lucas, que era mais gelado ainda. O corpo todo estremeceu, mas olhou para cima e o fantasma o olhou de volta, focando o olhar na boca dele em vez dos olhos. Logo o corpo começou a aquecer.

Admirava a facilidade de Lucas em se fazer sólido, algo que apenas fantasmas um pouco mais experientes costumavam poder fazer. E a única coisa que tinha certeza sobre a morte dele, era que estava morto há pouco tempo.

— Sei que nosso trato é que você não precisa dizer nada pra mim sobre sua morte. Mas será que você podia me falar pelo menos uma coisa?

Lucas ficou visivelmente irritado. Estalou a língua, olhou para longe e começou a batucar o pé. 

Felipe suspirou, arrependido de falar aquilo.

— Eu não queria…

— Tudo bem — Lucas respondeu, a expressão suavizando. Olhou para Felipe, na altura do peito dele e passou a mão de leve pelos cabelos loiros do médium. — Não me pergunte nada sobre isso, não quero mentir pra você.

Felipe riu e Lucas revirou os olhos.

— Eu to falando sério, Lipe. 

— Eu sei.

Fechou os olhos, sentindo a mão gelada fantasmagórica acariciar sua cabeça. Cruzou os braços sobre o peito para se aquecer e encontrou ali a mão do garoto. A segurou e Lucas o apertou de leve.

— Nosso combinado — Lucas começou — é que nas nossas sessões, quem fala é você. Então vai, começa a falar.

Felipe riu de novo e abriu os olhos para ver Lucas torcendo a boca para ele.

— Tu só quer que eu fale pra você não precisar pensar.

— Óbvio, não sou tão complexo.

— Não tenho nada pra dizer.

— Me fale, sei lá, da sua faculdade.

Felipe respirou fundo, segurou a mão de Lucas e ficou cutucando os dedos de ectoplasma dele, distraído. Gostava da textura contra sua pele.

— Sei lá.

— Afe.

— Sei lá, Lucas, você que deveria me falar da faculdade. Eu queria ter feito Música, sabia?

— E por que não fez?

— Porque sou burro, ué.

— Ainda dá tempo.

— Sou muito ocupado, Lu. Entre a banda e o trampo como médium não consigo fazer mais nada.

— Porque fez Psicologia então?

— Eu já falei.

— Já falou pros outros trinta bilhões de fantasmas, não pra mim.

Felipe soltou o ar com força pelo nariz e inspirou fundo.

— Eu só queria fazer alguma coisa que pudesse me ajudar com os fantasmas. Psicologia pareceu uma boa ideia. O Mundo Espiritual paga bem e posso trabalhar como médium o resto da vida se eu quiser.

— Você disse que tava cansado do serviço.

— Eu estou exausto, só preciso de um tempo. Tirar férias, sei lá. O trampo banca a banda. E não é como se algum trampo numa firma qualquer por aí, atrás de um computador, fosse ser melhor que ser médium. Eu gosto de ser médium. Paga bem ser médium.

Lucas ajeitou o cabelo de Felipe, puxando ele todo para trás. Deu uma risadinha de cócegas quando o fantasma mexeu no pescoço dele para pegar no brinco, um ponteiro ouija de acrílico preto. Ficou ali em silêncio observando o rosto distraído de Lucas, conjecturando se seria muito errado beijá-lo.


Já tinha ficado com mortos antes. Na verdade, já tinha ficado com todo tipo de criatura sobrenatural. Era, inclusive, difícil para ele se relacionar com humanos vivos normais. O pior de tudo é que já se forçara a ficar com quem não gostava, só pra não ficar sozinho. Porque seria difícil demais ficar com algum humano normal.

— No que você tá pensando? — Felipe perguntou, fechando os olhos mais uma vez.

Lucas soltou seu brinco e suspirou, um ato puramente habitual, já que não respirava.

— Que deve ser bem prático carregar um ponteiro de ouija por aí.

— Na real, se eu precisar em uma urgência, é mais fácil arranjar um copo ou um compasso.

— Faz sentido. E você?

— Eu o que?

— No que tá pensando.

— Sei lá.

— É sério.

Felipe se ajeitou, enfiando as mãos nas axilas para aquecê-las. Não podia falar pra ele o que estava pensando. Até poderia, mas deveria? A situação de Lucas já era complicada por si só. Não tinha como adivinhar como Lucas e Lorena reagiriam se falasse para qualquer um deles o que sentia. 

— To pensando que tá muito frio e que vir pra cá foi um erro.

— Pelo menos tá vazio e você pode falar comigo sem parecer um louco, falando com o nada. 

— Isso é — Felipe dobrou os joelhos, a brisa gelada pinicando seu nariz. — Sua vez.

— Minha vez o que?

— Ué? Falar o que tá pensando.

— De novo?

— É.

Lucas balançou a cabeça, passou a mão nos cabelos e voltou a balançar os pés.

— Quero Sair.

— Você quer voltar pra casa ou você tá falando da música?

— A música Quero Sair — ele respondeu. Fez uma longa pausa antes de continuar. —  Quero sair, preciso ir embora, posso vê-la se aproximar. Já não sei mais onde me esconder quando ela chegar. 

— O que tem? — Felipe perguntou. A voz de Lucas era bonita até recitando a letra da música sem emoção alguma.

— Foi você quem escreveu?

— Foi.

— Quem é ela? E se você responder com sei lá eu chuto seu pâncreas.

Um canto do lábio de Felipe se retorceu e ele soltou um suspiro lento e profundo, formando uma nuvem de vapor na frente da boca. Tinha escrito a primeira versão daquela música com uns doze anos de idade, impulsionado pela presença sufocante da mãe. Na época, ser músico e ter uma banda não passava de um sonho que ele compartilhava com Ruby, a única amiga sobrenatural que tinha além de Shion. Então brincava de escrever músicas.

Como tudo que fazia, isso também era censurado por ela, que sabia que havia algo errado com seu filho, mas não conseguia atinar exatamente o que. Ainda precisou esconder a mediunidade por mais três anos até os pais serem hipnotizados pelo vampiro Shion e irem embora.

— Minha mãe.

Fechou os olhos e ficou esperando resposta de Lucas, mas ele ficou quieto. Lembrou que ele não tinha uma relação boa com o irmão, com quem viveu por anos, e se perguntou se os dois teriam mais aquilo em comum. A violência física de quem deveria protegê-los.

— Meu coração acelera e não consigo dizer não — Lucas começou, recitando lentamente a música que só poderia ser dele. — O que sinto o que desejo, tudo parece em vão. Minha mente se esvazia, meu corpo se prepara, tudo que quero agora é poder ir para casa. Não há onde ir, para onde voltar. E de repente o que mais quero, o que desejo é ter um lar.

Lucas para de falar e Felipe abre os olhos. O fantasma enrola e desenrola uma mecha dos cabelos do médium no dedo. Felipe leva a mão para cima e segura a mão dele, fazendo-o parar.

— São parecidas — disse, levando a mão de Lucas até o peito e segurando ela ali.

— São. 

Não falaram mais nada por muito tempo. Não precisavam. Os minutos passaram em quietude e a mão do fantasma já parecia até quente contra a sua. O calafrio na barriga era constante e a vontade de beijar Lucas ficava cada vez mais insuportável. Ele acariciava seu cabelo, roçava os dedos em seu rosto e murmurava uma canção.

Queria que aquele momento pudesse durar horas. Ficar ali naquela paz, naquele silêncio, naquele conforto, até o mundo virar pó. 

— Sua vez — Lucas falou.

— Não.

— É justo. Você só falou coisas nada a ver, tipo, ui ui, tá frio. 

Felipe deu uma risada.

— Tem alguma coisa específica que você quer me ouvir dizer?

— E se tiver?

Felipe bufou. Cansado, com frio e sem muito saco de usar o cérebro. Se levantou do colo de Lucas, apoiou a mão atrás dele na murada e resmungou:

— É nisso aqui que tô pensando.

Segurou o rosto de Lucas e tascou-lhe um beijo que o fantasmas retribuiu depois de dois segundos de choque.

Era uma sensação estranha, beijar um fantasma. Mas Lucas conseguia deixar o corpo tão sólido que era fácil se deixar levar e esquecer que ali não tinha um corpo. Que ele era gelado. Que parecia água corrente. O mais difícil era esquecer que ele estava morto. Que não tinha futuro nenhum com ele.

Lucas se aproximou mais, se ajeitaram e o fantasma montou no colo dele, segurando o rosto de Felipe com as duas mãos, o beijando com força.

Havia falado para Lorena que ela precisava ver afeto e amor de forma diferente agora que estava morta, mas ele mesmo tinha dificuldade de seguir o próprio conselho ao se relacionar com alguém sem vida. Queria que fosse como das outras vezes. Só diversão. Ou só um afeto que que conseguia ver como passageiro. Apenas uma curtição mútua que ficaria no âmbito da amizade colorida, só um detalhe, um algo a mais até o fantasma ir para o Mais-Além. Mas não era aquilo que sentia com Lucas. Nem com Lorena. Mas era impossível se afastar. Não conseguia criar distância e sair daquele redemoinho que acabaria em miséria.

Separou a boca do garoto e apoiou a cabeça no ombro dele. Não queria erguer o olhar e ver o rosto dele. Não queria saber que expressão ele estaria fazendo. Lucas movimentou a cabeça de leve, como se o acariciasse com a bochecha.

— As vezes eu fico pensando… — o fantasma começou.

Felipe demorou alguns segundos para responder.

— No que?

— Em como deve ser estranho ver a gente pra quem não pode ver fantasmas.

— Eu prefiro nem imaginar.

A risada vinda de Lucas foi baixa, balançando seu corpo suavemente. Era bom ali, perto dele. Isso o fazia pensar no quanto doeria quando ele fosse embora.

— O que foi que você disse pra Lori? — Lucas perguntou.

— Sobre?

— Sobre… — ele fez uma pausa, buscando as palavras. — Amor após a morte.

Felipe afastou o rosto. Os olhos de Lucas fitaram os seus por um breve instante, foram para os lábios mais uma vez, e lá ficaram. Entrelaçou os dedos atrás de Lucas, o segurando bem perto de si.


— Ela não te falou?

— Falou, mas você sabe como ela é. A memória é podre demais pra lembrar direito.

Felipe abafou uma risada.

— Falei pra ela que amor não é um sentimento exclusivo dos vivos. E que as pessoas veem o amor como algo meio exclusivamente romântico, que precisa durar uma vida inteira, sei lá, algo assim. Eu também não lembro bem. 

Lucas afastou o corpo alguns centímetros, ajeitou as pernas, pendurando-as do outro lado da mureta. Roeu uma unha e olhou para o morro.

— A Alice discorda do seu ponto de vista.

Felipe agarrou a mão de Lucas e entrelaçou seus dedos de unhas pretas nas mãos pálidas dele.

— Foda-se o que a Alice pensa. 

— Sei lá.

— Sei lá o que?

— Sei lá, o jeito que ela falou. Me deixou com medo. Da Lorena… ficar presa aqui.

— Ela não vai ficar presa aqui.

— Como você pode ter tanta certeza?

— Sei lá, eu só tenho. Lucas, eu trabalho com isso desde sempre, chega uma hora que a gente começa a sentir essas coisas. 

— Ah, é, então o que você sente em relação a mim?

Felipe torceu a boca para forçá-la a ficar quieta, mas a abriu mesmo assim.

— Eu acho que você não é nada como qualquer coisa que eu já tenha conhecido.

— Coisa.

— Caralho, você realmente se apega nos detalhes, né?

— O que você quis dizer?

— Eu tenho a impressão de que você quer que eu adivinhe seja lá o que você esconde para que não tenha que falar nada. Parece que você tá tentando sabotar nossa amizade. As vezes eu acho que gostaria muito que eu lesse seu arquivo e me afastasse de você. Você acha o que? Que assim vai doer menos? Você acha que eu tenho medo da forma que você morreu? Que tenho pena de você? Lucas, eu to cagando e andando pra como você morreu. Eu já vi de tudo. Nada me assusta ou me surpreende mais. Tem algo que você queira me falar? Porque parece que sim. 

— Isso não é novidade.

— Então fala.

— Eu não tô pronto, Felipe. Que inferno.

Felipe esfregou o rosto e sacudiu as mãos, como se o gesto pudesse dissipar a energia acumulada pela discussão.

— Eu sei — falou em voz baixa. — Desculpe.

— Não precisa se desculpar.

— Preciso sim. Eu só fico puto de ouvir esse tom na sua voz.

— Que tom?

— De quem… se odeia.  

Lucas se desvencilhar de Felipe e ficou de pé sobre a mureta. Os punhos fechados ao lado do corpo, olhando para o céu enevoado.

— Você se sente realmente responsável por ela, né? — Felipe perguntou. — Por Lorena.

Lucas assentiu lentamente como resposta.

— Por quê? — Felipe insistiu.

Dessa vez, a cabeça do fantasma se moveu para os lados. 

— Será que a gente pode ir embora?

Felipe ficou de pé ao lado e tentou apoiar a mão no ombro de Lucas, mas os dedos apenas atravessaram o corpo dele.

— Lucas…

— Tá tudo bem. Eu só… eu só não consigo te falar o que você quer ouvir. 

— Eu não quero ouvir nada. Eu prometi que não ia te pressionar. Desculpa, eu só…

  O fantasma ficou esperando o resto da frase, mas Felipe ficou calado por um minuto inteiro antes de continuar.

— Posso te mostrar uma coisa? — perguntou o médium.

Lucas olhou para ele arqueando uma sobrancelha.

— O que?

Felipe estendeu a mão, como sempre fazia quando convidava o fantasma para incorporar nele. Lucas deu um passo para trás.

— Eu não consigo proteger meus pensamentos como você.

— Não precisa. Eu não vou olhar. Só quero te mostrar uma memória minha. 

Lucas hesitou por um instante, então deu de ombros e segurou a mão de Felipe com força. E aí o médium deixou ele entrar.


***


Felipe está na cozinha, lavando louça. Ele para e olha para o fogão, conferindo o molho vegetariano. A memória é vívida e Lucas sente o gosto do estrogonofe. O aroma do arroz cozinhando. O cheiro das laranjas cortadas na bancada. 

Ele escuta a voz de Lorena. Felipe se vira, seca as mãos em um pano pendurado no bolso do avental e senta em um banco. A namorada está desenhando um vestido em um caderno de Felipe, concentrada. 

— Tá ficando muito foda — é estranho sentir a voz de Felipe sair da sua boca, mas logo lembra que aquela é a boca dele. Que está em uma mureta, longe dali, no escuro, que o que via era uma memória.

Lorena não responde. Sequer ergue a cabeça. Não se importou. Felipe também não. Era difícil saber quem sentia o que.

Lucas fazia a mesma coisa quando tocava piano ou guitarra. 

Sentiu Felipe sorrir, lá na praia, no escuro. Sentiu que ele pôde sentir aquele pensamento. 

“Você prometeu”

“Eu não fui atrás desse pensamento. Você que pensou ele”

“Não pense em um elefante rosa”

“Não é assim que funciona. Se você não quer que eu veja algo, não vou conseguir ver sem forçar”

Lucas soube que era verdade, porque sentiu a verdade na cabeça dele. 

Felipe desliga o fogo. Termina o suco de laranja. Lucas vê a si mesmo surgir na sala e sentar no sofá ao lado de Shion. Era tão estranho, se ver. Parecia tão desengonçado, tão alto. Tão pálido. 

“Tão lindo”

“Seu gosto é horrível”

Viu como Felipe olhou para Lorena. Como admirava o talento dela. Podia sentir como ela o atraía. Como o coração deu uma acelerada quando ela ergue os olhos escuros e ajeita o cabelo azul atrás da orelha.

Lucas suspira. Ou Felipe?

“Nem tão horrível assim”

Ouve ele pensar. 

“Por que você tá me mostrando essa memória?”

“Foi difícil achar uma que não violasse confidencialidade”

— O que você acha? — Lorena pergunta, empurrando o caderno para ele, como se minutos atrás ele não tivesse dito nada.

— Achei lindo — Felipe responde.

Ele vira as páginas do caderno. Saias. Botas. Vestidos. Blusas. Tudo preto, roxo e azul. Tudo digno de um desfile de moda alternativa.

— Desenhar não te deixa mal? — ele pergunta.

Lorena segura um lápis de cor vermelho e o equilibra entre os dedos. Ela balança a cabeça.

— Não. Achei que ficaria… mas… eu gosto. 

— Alguns mortos não curtem muito fazer o que faziam quando vivos. 

— Dá pra entender — ela olha para o caderno. As sobrancelhas grossas caindo de leve. — Meu sonho era ser estilista e nunca vou fazer essas roupas. Mas eu também não consigo deixar essa parte de mim de lado. 

Felipe continua virando as páginas. Lá atrás, na sala, Lucas se vê com um baixo nas mãos, Shion do lado. Lembrava daquele dia. O médium vira o papel novamente e sente o coração dele dar uma batida mais forte. Ocupando uma folha inteira, havia um desenho de Lucas. Ele sorria, a guitarra nas mãos.

— Não sabia que você desenhava mangá.

— Não desenho. 

— Isso é o que então?

— Só um desenho, não quer dizer que eu desenhe mangá.

Felipe ri e Lucas sente um calafrio no estômago com o som da risada saindo da boca que não é dele.

Ele pega um lápis grafite, morde a ponta dele por uns instantes e começa a desenhar na folha ao lado. O estilo de desenho é diferente. Apressado, como um rascunho. Logo reconheceu as feições da descendência indígena de Lorena nascendo no caderno.

— O Lucas se sente responsável por você — ele continua desenhando, fazendo o cabelo chanel arrepiado dela.

Lorena dá de ombros.

— Bobiça dele.

— Eu queria entender o porquê.

— Por causa da Flávia. Aquela ceifadora. Ela colocou na cabeça dele que ele precisava me ajudar.

Lucas sente os lábios de Felipe se torcerem e voltarem à posição original rapidamente. Consegue sentir na cabeça dele que aquela informação faz pouco sentido.

— Você discorda, então? — Felipe hachura as sombras no rosto de Lorena no papel. Ela olha, atenta.

— Claro que sim. Ele não me deve nada. 


***


A visão se desfez e Felipe deixou Lucas sair do seu corpo. O fantasma deu alguns passos para trás e voltou a sentar na amurada.

— Eu sempre soube que ela acha que não devo nada a ela.

— Mas você continua achando que deve. 

Ela balançou a cabeça e dobrou o joelho até o peito.

— Talvez porque…

— Hum.

— Esquece.

Felipe pulou para o chão e andou até o carro.

— Vamo embora, não aguento mais esse frio.

Quando o médium sentou no banco do motorista, Lucas já estava no carona. Felipe esfregou os dedos gelados e ligou o ar quente. 

— Fiquei pensando naquilo que a Lorena falou sobre os croquis dela — disse Lucas, cruzando as pernas no assento. — Que ela gosta de desenhar, mesmo sabendo que as roupas nunca serão feitas e tal.

Felipe assentiu, olhando para ele, esperando que Lucas terminasse sua linha de raciocínio.

— Aquele violão ainda tá no porta malas?

— Tá sim. 

— Pega pra mim.

Não perguntou o porquê, só saiu para a noite fria mais uma vez e pegou o violão, deixando o case lá.

Lucas havia se transportado para a mureta e lá estava sentado mais uma vez. Felipe soltou um suspiro cansado e friorento e andou até ele.

— Eu não tenho mais o que fazer com essa música — Lucas falou. — Então pensei que talvez a banda possa ficar com ela. Afinal, eu tocava o mesmo estilo que vocês.

— A gente não pode roubar sua composição, Lu.

— Então coloca os créditos no CD.

— Lucas…

— É sério, é o mínimo que eu posso fazer por vocês. E seria um favor pra mim, também.

— Acredite, você já está ajudando muito nos ensaios e tudo mais.

O fantasma balançou a cabeça.

— Deixa eu tocar no seu corpo, e aí você pega a música e não corre o risco de ninguém passar e ver um violão flutuante. 

Decidiu não discutir. Estendeu a mão para Lucas, o deixou entrar mais uma vez e sentou a bunda na mureta gelada. Deixou Lucas tomar conta de suas mãos e da sua voz.

O garoto testou as cordas, afinou uma delas de ouvido e começou a dedilhar uma melodia melancólica, como tudo que Lucas compunha.

— Eu ainda não dei um título — falou ele, terminando dedilhar a introdução — Então vocês podem decidir alguma coisa.

Ele inspirou fundo.


Meu coração acelera e não consigo dizer não

O que sinto o que desejo, tudo parece em vão.

Minha mente se esvazia, meu corpo se prepara,

tudo que quero agora é poder ir para casa.


Gritar

Ah! Não há onde ir, para onde voltar.

E de repente o que mais quero,

o que desejo é ter um lar.


Já tentei

tentei ir para fora

e me vejo encurralado

sem querer admitir

que preciso voltar


Meu coração se aperta, grito não

Fico sem fôlego, perco a respiração

Sem controle, capacidade, poder, vontade

Sem saber quem sou eu de verdade


Sem saber

Vejo seu rosto e só quero fugir

sumir dessa cidade


Destruir meu próprio corpo parece uma opção


pra você não me tocar

nunca mais te ouvir gritar

e nessa casa de horror e ódio

nunca mais ter que pisar


Grito um não

Já tentei

tentei ir para fora

e me vejo encurralado

Ah, será que algum dia

terei pra onde voltar


Lucas terminou de tocar as notas finais, saiu do corpo do médium e ficou ali sentado de cabeça baixa.

Felipe dedilhou a introdução da música de Lucas. Conseguia lembrar dela completamente. Enquanto o fantasma cantava, teve vislumbres do quarto dele, entre a vista da praia e do quarto desconhecido, repleto de pôsteres nas paredes e equipamentos musicais pelo chão e sobre a cama. 

— Isso é uma coisa que me assombra — o fantasma começou, e fez uma pausa antes de continuar. — Minhas músicas, eu digo. Não só a música, mas… sei lá, tudo. Eu não me preocupei com isso quando… tanto que fui embora e deixei tudo como estava e fiz o que fiz. Mas agora, tocando com vocês… eu fico, sei lá. Confuso. Mas ao mesmo tempo, eu não teria conhecido vocês se eu não fosse um fantasma. Então fico preso nessa espiral de pensamentos.

Felipe soltou o violão delicadamente na amurada para não arranhá-lo e abraçou Lucas. O fantasma enterrou o rosto em seu ombro e o corpo de Felipe estremeceu. Lucas se afastou.

— Foi mal, to piorando seu frio.

— Tá tudo bem — Felipe o segurou ali mesmo em seus braços por mais uns minutos.

O frio era passageiro, ao contrário de momentos como aquele. E o tempo com Lucas, como sempre era com os mortos, seria curto.

Afastou o rosto apenas o necessário para beijá-lo mais uma vez e ficaram ali com as testas grudadas até o frio falar mais alto.

Voltaram para o carro, Felipe ligou o som e foram para casa, cantando músicas que não falavam nada sobre morte, dor ou sofrimento.



Oi!

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Esse conto é um pedacinho do livro Desmortos. Quem sabe, em breve, vocês poderão ler a história do Lucas, do Felipe e da Lorena de forma completa. Muito obrigada por ler! 

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Obrigada a todes que fizeram a leitura beta do conto, em especial Ana Carolina, Emílio (@insetonarrando) e Catinha (@DiLuaLovebook).

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